domingo, 10 de janeiro de 2021
TRUMP NÃO TOMARÁ CIANURETO
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS TRUMP NÃO TOMARÁ CIANETO Trump não é Hitler, os EUA
não são a Alemanha nazi, nenhum exército invasor está caminho da Casa Branca.
Apesar de tudo isto, não é possível evitar uma comparação entre Trump nestes
últimos dias e os últimos dias de Hitler. Hitler no seu bunker, Trump na Casa
Branca. Os dois, tendo perdido o sentido da realidade, dão ordens que ninguém
cumpre e, quando desobedecidos, declaram traições, e estas vão chegando até aos
mais próximos e incondicionais: Himmler, no caso de Hitler, Mike Pence, no caso
de Trump. Tal como Hitler se recusou a acreditar que o Exército Vermelho
soviético estava a dez quilómetros do bunker, Trump recusa-se a reconhecer que
perdeu as eleições. Terminam aqui as comparações. Ao contrário de Hitler, Trump
não vê chegado o seu fim político e muito menos recolherá ao seu quarto para,
juntamente com a mulher, Melanie Trump, ingerir cianeto, e ter os seus corpos
incinerados, conforme testamento, no exterior do bunker, ou seja, nos jardins da
Casa Branca. Por que não o faz? No final da guerra, Hitler sentia-se isolado e
profundamente desiludido com os alemães por não terem sabido estar à altura dos
altos destinos que lhes reservara. Como diria Goebbels, também no bunker: “O
povo alemão escolheu o seu destino e agora as suas pequenas gargantas estão
sendo cortadas”. Ao contrário, Trump tem uma base social de milhões de
norte-americanos e, entre os mais fiéis, grupos de supremacistas brancos armados
e dispostos a seguir o líder, mesmo que a ordem seja invadir e vandalizar a sede
do Congresso. E, longe de ser pessimista a respeito deles, Trump considera os
seus seguidores os melhores norte-americanos e grandes patriotas, aqueles que
farão a “America great again”. Hitler sabia que tinha chegado ao fim e que o seu
fim político seria também o seu fim físico. Trump, longe disso, acredita que a
sua luta verdadeiramente só agora começa, porque só agora será convincentemente
uma luta contra o sistema. Enquanto muitos milhões de norte-americanos querem
pensar que o conflito chegou ao fim, Trump e os seus seguidores desejam mostrar
que agora é que vai começar – e continuará até que a América lhes seja
devolvida. Joe Biden está, pois, equivocado quando, ao ver a vandalização do
Congresso, afirma que isto não é os EUA. É, sim, porque os EUA é um país que não
só nasceu de um acto violento (a chacina dos índios), como foi por via da
violência que todo o seu progresso ocorreu, traduzido em vitórias de que o mundo
tantas vezes se orgulhou, da própria união dos Estados “Unidos” (620.000 mortos
na guerra civil) até à luminosa conquista dos direitos cívicos políticos por
parte da população negra (inúmeros linchamentos, assassinatos de líderes, sendo
Martin Luther King. Jr. o mais destacado entre eles), como ainda é o país onde
muitos dos melhores líderes políticos eleitos foram assassinados, de Abraham
Lincoln a John Kennedy. E essa violência tanto dominou a vida interna, como toda
a sua política imperial, sobretudo depois da segunda Guerra Mundial. Que o digam
os latino-americanos, o Vietname, os Balcãs, o Iraque, a Líbia, os
palestinianos, etc. etc. Joe Biden também está equivocado quando diz que o
pesadelo chegou ao fim e que agora se vai retomar o caminho da normalidade
democrática. Pelo contrário, Trump tem razão ao pensar que tudo está a começar
agora. O problema é que ele, ao contrário do que pensa, não controla o que vai
começar e, por isso, os próximos anos tanto lhe podem ser favoráveis,
reconduzindo-o à Casa Branca, como podem ditar o seu fim, um triste fim.
Enquanto sistema político e social, os EUA estão num momento de bifurcação, um
momento, próprio dos sistemas muito afastados dos pontos de equilíbrio, em que
quaisquer pequenas mudanças podem produzir desproporcionadas consequências. É,
pois, mais difícil ainda do que o usual prever o que se vai passar. Identifico
alguns três dos factores que podem causar mudanças num ou noutro sentido:
desigualdade e fragmentação, primado do direito, Stacey Abrams. Desigualdade e
fragmentação. Desde a década de 1980, a desigualdade social tem vindo a
aumentar, e tanto que os EUA são hoje o país mais desigual do mundo. A metade
mais pobre da população tem hoje apenas 12% do rendimento nacional, enquanto o
1% mais rico tem 20% desse rendimento. Nos últimos quarenta anos o
neoliberalismo ditou o empobrecimento dos trabalhadores norte-americanos e
destruiu as classes médias. Num país sem serviço público de saúde e sem outras
políticas sociais dignas do nome, uma em cada cinco crianças passa fome. Em
2017, um em cada dez jovens com idade entre os 18 e os 24 anos (3.5 milhões de
pessoas) tinha passado nos últimos doze meses por um período sem lugar onde
morar (homelessness). Endoutrinados pela ideologia do “milagre americano” das
oportunidades e vivendo num sistema político fechado que não permite imaginar
alternativas ao statu quo, a política do ressentimento que a extrema-direita é
exímia em explorar fez com que os norte-americanos vitimizados pelo sistema
considerassem que a origem dos seus males estava noutros grupos ainda mais
vitimizados que eles: negros, latinos ou imigrantes em geral. Com a desigualdade
social aumentou a discriminação étnico-racial. Os corpos racializados são
considerados inferiores por natureza; se nos causam mal, não há que discutir com
eles. Há que neutralizá-los, depositando-os em prisões ou matando-os. Os EUA têm
a taxa de encarceramento mais alta do mundo (698 presos por 100.000 habitantes).
Com menos de 5% da população mundial, os EUA têm 25% de população prisional. A
probabilidade de jovens negros serem condenados a penas de prisão é cinco vezes
superior à de jovens brancos. Nestas condições, é de surpreender que o apelo ao
anti-sistema seja atractivo? Note-se que há mais de 300 milícias armadas de
extrema-direita espalhadas por todo o país, um número que cresceu depois da
eleição de Obama. Se nada for feito nos próximos quatro anos para alterar esta
situação, Trump continuará a alimentar, e com boas razões, a sua obsessão de
voltar à Casa Branca. Primado do direito. Os EUA transformaram-se nos campeões
mundiais da rule of law e da law and order. Durante muito tempo, em nenhum país
se conhecia o nome dos juízes do Supremo Tribunal, excepto nos EUA. Os tribunais
norte-americanos exerciam com razoável independência o papel de zelar pelo
cumprimento da Constituição. Até que certos sectores das classes dominantes
entenderam que os tribunais podiam ser postos mais activamente ao serviço dos
seus interesses. Para isso, decidiram investir muito dinheiro na formação de
magistrados e na eleição ou nomeação de juízes para os tribunais superiores.
Esta mobilização política da justiça teve uma dimensão internacional quando,
sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, a CIA e o Departamento de Justiça
passaram a investir fortemente na formação de magistrados e na mudança da lei
processual (delação premiada) dos países sob a sua influência. Assim surgiu a
Lawfare, guerra jurídica, de que a Operação Lava-Jato no Brasil é um exemplo
paradigmático. Trump cometeu vários crimes federais e estaduais, entre eles,
obstrução da justiça, lavagem de dinheiro, financiamento ilegal de campanha
eleitoral e crimes eleitorais (o mais recente dos quais foi a tentativa de
alterar fraudulentamente os resultados das eleições na Geórgia em Janeiro de
2021). Funcionará o sistema penal como nos habituou no passado? Se assim for,
Trump será condenado e muito provavelmente preso. Se assim acontecer, o seu fim
político estará próximo. Caso contrário, Trump trabalhará a sua base, dentro ou
fora do partido republicano, para regressar com estrondo em 2025. Stacey Abrams.
Esta ex-congressista negra é a grande responsável pela recente eleição dos dois
senadores democratas no Estado da Geórgia, uma vitória decisiva para dar a
maioria do Senado aos democratas e permitir assim que Biden não seja objecto de
obstrução política permanente. Qual é o segredo desta mulher? Ao longo de dez
anos procurou articular politicamente todas as minorias pobres da Geórgia –
negras, latinas e asiáticas – um estado onde 57.8% da população é branca, um
estado tido por racista e surpremacista, onde tradicionalmente ganham os
conservadores. Durante anos, Abrams criou organizações para promover o registo
eleitoral das minorias pobres alienados pelo fatalismo de ver ganhar sempre os
mesmos opressores. Orientou o trabalho de base para incentivar a união entre os
diferentes grupos sociais empobrecidos, tantas vezes separados pelos
preconceitos étnico-raciais que alimentam o poder das classes dominantes. Ao fim
de dez anos, e depois de uma carreira notável que podia ter atingido o auge com
a nomeação para vice-presidente de Biden – no que foi preterida em favor de
Kamala Harris, mais conservadora e próxima dos interesses das grandes empresas
de informação e de comunicação de Silicon Vale – Abrams consegue uma vitória que
pode liquidar a ambição de Trump de regressar ao poder. No mesmo dia em que os
vândalos partiam vidros e saqueavam o Capitólio, festejava-se na Geórgia este
feito notável, uma demonstração pujante de que o trabalho político que pode
garantir a sobrevivência das democracias liberais nestes tempos difíceis não
pode estar limitado a votar de quatro em quatro anos, e nem sequer ao trabalho
nas comissões parlamentares por parte dos eleitos. Exige trabalho de base nos
locais inóspitos e muitas vezes perigosos onde vivem as populações empobrecidas,
ofendidas e humilhadas que, quase sempre com boas razões, perderam o interesse e
a esperança na democracia. O trabalho de Stacey Abrams, multiplicado pelos
movimentos Black Lives Matter, Black Voters Matter e tanto e tantos outros,
muitos deles inspirados por Bernie Sanders e a “nossa revolução” por ele
animada, podem vir a devolver à democracia norte-americana a dignidade e a
vitalidade que Trump pôs em risco. Se assim for, a melhor lição que os
norte-americanos podem aprender é que o mito do “excepcionalismo americano” é
isso mesmo, um mito. Os EUA são um país tão vulnerável como qualquer outro a
aventuras autoritárias. A sua democracia é tão frágil quanto frágeis forem os
mecanismos que podem impedir autocratas, antidemocratas de serem eleitos
democraticamente. A diferença entre eles e os ditadores é que, enquanto estes
últimos começam por destruir a democracia para chegar ao poder, os primeiros
usam a democracia para ser eleitos, mas depois recusam-se a governar
democraticamente e abandonar democraticamente o poder. Da perspectiva da
cidadania, a diferença não é muito grande. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS Professor
e sociólogo português, pensador crítico de esquerda mundial.
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