segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"SE NÃO DÃO, A GENTE PEGA"

"Se não dão, a gente pega”

Brito: como Moro justifica a tramoia do auxílio-moradia

publicado 03/02/2018
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Quem sabe devêssemos dizer: “trabalhadores explorados, pegai o que acham merecer”
Conversa Afiada reproduz do Tijolaço, de Fernando Brito:
Sérgio Moro veio com a explicação para o recebimento indevido – sim, indevido, porque não se trata de indenização por gasto em moradia – do auxílio que ele recebe para morar em apartamento próprio.
— O auxílio-moradia é pago indistintamente a todos os magistrados e, embora discutível, compensa a falta de reajuste dos vencimentos desde 1 de janeiro de 2015 e que, pela lei, deveriam ser anualmente reajustados — disse ele a O Globo.
Modus in rebus, excelência, como se diz no fórum, citando os versos do romano Horácio em suas Sátiras. Moderação nas coisas.
Primeiro, o auxílio não é “pago indistintamente a todos os magistrados”, mas apenas aos que o requerem, declarando que não possuem cônjuge com o mesmo benefício e comprometendo-se a informar o tribunal se isso vier a ocorrer. Está bem escritinho lá na Resolução 199 do Conselho Nacional de Justiça.
Não lhe caiu na conta, portanto: o senhor o pediu e pediu sabendo que não merece receber indenização por moradia por ter moradia própria e, portanto, não ter despesa locatícia com ela.
Se o fato de ficar sem reajuste fosse motivo para pagar vantagens indevidas, os professores, os médicos, os humildes faxineiros do serviço público também deveriam recebê-los, porque muitos estão sem reajuste faz tempo.
E na iniciativa privada, se o patrão não dá aumento, será que podemos pegar do caixa da firma o que achamos ser justo?
Quem sabe devêssemos dizer: “trabalhadores explorados, pegai o que acham merecer”
Recorde-se, Dr. Moro, que o caso dos senhores é julgado por seus pares, igualmente potenciais beneficiários da mesma vantagem.
Não, Doutor, essa vantagem não é moral, não é legal.
É indevida, porque não está prevista, como se demonstrou aqui, em lei alguma, mas apenas por uma decisão de um ministro do Supremo  que torceu a disposição excepcional da Lei Orgânica da Magistratura para concluir não só que todo e qualquer juiz teria direito a uma “residência oficial” quanto para entender como aluguel ou hospedagem a moradia em imóvel próprio.
O senhor, que condenou Lula por uma vantagem indevida que ele não recebeu, ou da qual há qualquer prova de que solicitou, recebe vantagem que sabe ser indevida e que, ao contrário do ex-presidente, solicitou expressamente.
A sua justificativa é tão pífia quanto aquela do ex-presidente do TJ-SP, que declarou que, sem reajuste, os juízes precisavam do auxílio para comprar ternos, porque “não se pode toda hora ir a Miami”. O senhor não lembra? Está aqui.
Os versos do poeta Horácio, excelência, continua: “sunt certi denique fines,  quos ultra citraque nequit consistere rectum”.Livremente, “há certos limites dos quais não se pode passar sem perder a retidão.”
Seria bom que o senhor e seus colegas lessem o velho poeta, que nesta Sátira ataca a ambição, perguntando se, se te basta um copo, porque tentar beber o rio inteiro?
E o copo dos juízes, neste Brasil sedento, já é um barril.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O POVO PODE

“Vamos furar a bolha das grandes redes de TV”: o cineasta Max Alvim fala de seu filme sobre a caravana de Lula no Nordeste

 


DCM: Como surgiu a ideia de fazer este documentário?
Max Alvim: Este documentário começou com um convite da TVT para eu dirigir um filme com o ex-presidente Lula acompanhando a caravana dele pelo Nordeste brasileiro. Como todos sabemos, as caravanas do Lula são uma iniciativa corajosa e cidadã do ex-presidente nesse momento tão complexo e perigoso que estamos vivendo no Brasil. Quando fui convidado, de imediato, percebi que ali tínhamos uma oportunidade histórica de mostrar o que aconteceu com o Brasil antes e depois do golpe. A tarefa era grande. Então reunimos alguns parceiros e montamos o núcleo principal de produtores: a TVT, o Instituto Alvorada Brasil e o Canal i Produções. Com esse grupo conseguimos viabilizar recursos iniciais para sustentar os 36 dias de filmagens do documentário no Nordeste.
O que você viu na caravana que mais te impressionou?
Eu vi muita coisa incrível acompanhando o ex-presidente. É muito especial, é rigorosamente extraordinário você acompanhar um líder da envergadura do Lula andando por um país. Só isso já seria impressionante.
Mas eu vou destacar duas coisas que me emocionaram muito: uma é a relação do Lula com o povo. É revelador você ver este homem andando no meio de milhares de pessoas com uma energia, com um amor que circula em volta dele, que eu jamais vi em outro líder. O Lula tem a capacidade de no meio de uma multidão enxergar a pessoa mais simples, a pessoa mais carente, a pessoa que está em maior sofrimento, e no meio daquela confusão que é uma multidão em volta dele, ele consegue enxergar esta pessoa, chegar nela e fazer um gracejo, um agrado, dar a mão… isto é muito tocante, muito impressionante, e ele faz isto de forma espontânea, genuína.
A outra coisa que me emocionou muito nas 58 cidades que percorremos, nas dezenas de atos públicos pela democracia com milhares de pessoas, com todo tipo de gente, foi perceber que a maior parte das pessoas vai ao encontro do Lula exclusivamente para chegar perto dele e agradecer. É muito tocante ver isso, ver um ser humano que tem como principal objetivo agradecer aquele que foi o único político que de fato olhou para a sua vida e de sua família, o único político que produziu uma transformação pra melhor em sua vida. Isto é muito tocante, você fica realmente emocionado.
Você escolheu alguns personagens para contar esta história, como você os encontrou?
Diferente de outros filmes que foram feitos com o Lula, nosso objetivo não era ficar olhando para o Lula, fazer uma espécie de making of dos bastidores da caravana. A ideia era fazer um filme através do Lula, que revelasse o que ele observa, qual país ele observa e que outros políticos não observam.
Nestes 20 dias de caravana acompanhamos o ex-presidente procurando ser sensível a esse olhar e localizar personagens, pessoas comuns, brasileiros e brasileiras que poderiam dar um panorama do que é o Brasil de hoje e de antes do PT no poder. Foi assim, enquanto acompanhávamos o ex-presidente, que pudemos identificar nossos personagens e, após o retorno de Lula para São Paulo, retomamos as filmagens mergulhando na vida de cada um deles.
Quando se pensa no Brasil do governo do PT imediatamente lembramos do Bolsa Família. Entre os personagens do filme vocês identificaram beneficiários desse programa?
Sim, temos personagens beneficiários do Bolsa Família, assim como de outras tantas políticas públicas do Governo da era do PT. O Bolsa Família é uma das políticas públicas do PT implantados no governo Lula e Dilma com maior impacto social e econômico que você possa imaginar. É má fé ou desinformação falar que é “bolsa miséria” ou que é um recurso que o PT arrumou para comprar o povo. Tem gente que fala até que essa política inventa preguiçosos. É duro ouvir isso! Quando você vai lá e encontra este povo você percebe o absurdo que é dizer algo assim sobre o Bolsa Família.
Eu recomendo que antes de fazer uma crítica a este projeto, se vá conhecer quem é beneficiado por ele e quais impactos são causados na vida desses brasileiros e de suas comunidades. Eu conheci mulheres e famílias que se não fosse o Bolsa Família estariam em estado de miséria absoluta e, por estarem em estado de miséria absoluta, estariam ou na criminalidade ou já teriam morrido. O Bolsa Família é um programa muito importante no Brasil, foi através dele que tiramos milhões de pessoas da miséria e, concomitantemente, aquecemos a economia e viabilizamos o desenvolvimento de regiões antes esquecidas pelo Estado e pela iniciativa privada. 
Com tanta dificuldade na vida dessas pessoas no Nordeste e em tantas outras regiões do Brasil pode-se dizer que essa gente só segue viva porque não desiste de viver?
Este é um aspecto muito forte do brasileiro: resistir. O que a gente não pode é se esconder atrás deste aspecto, de que o brasileiro vence tudo e de que nunca desiste. Acima de tudo, precisamos continuar enfrentando isto de forma concreta através da política, construindo políticas públicas favorecedoras de maior justiça social. Não dá para transferir unicamente para o cidadão a responsabilidade sobre a vida dele. Esta ideia neoliberal que cabe exclusivamente a cada um de nós cuidar de nossas vidas e que o Estado não tem nada a ver com isso, é uma ideia muito cruel, muito selvagem.
Sim, o Estado tem tudo ver com nossas vidas e nós temos muito a ver com a vida dos outros, a gente tem que se preocupar mais uns com os outros e o Estado tem compromisso e responsabilidade constitucional com cada um de nós. Trata-se da gente cobrar mais do Estado e avançar garantindo nossos direitos como cidadãos. Não somos escravos da iniciativa privada! Isso tem de ficar claro. Neste sentido, foi muito impressionante fazer esta viagem com o ex-presidente Lula porque ficou visível como o PT avançou nos seus anos no governo federal na construção de políticas públicas comprometidas com a classe trabalhadora e com os mais desfavorecidos. Portanto, por um lado sim, nossa gente seguiu viva porque não desistiu, resistiu, se organizou e lutou pelos seus direitos, mas por outro, também avançamos porque ocupamos o Estado com gente comprometida com todos os brasileiros, não só com uma pequena parcela de privilegiados.
Por que este documentário se chama “O Povo Pode”?
A ideia do nome “O Povo Pode” nasceu de um discurso do Lula. Ele é um cara muito intuitivo e de repente no meio da fala soltou uma frase: “O Lula é uma ideia, a ideia de que o povo pode!” Ou seja, ele representa uma ideia, não se trata de eleger o Lula ou fulano ou beltrano. Não se trata de personalizar um salvador da pátria. Se trata de materializar ideias e a ideia que o Lula preconiza, que ele encarna, é esta ideia de reconhecer o poder e a potência do povo, que é o sentido mais amplo, mais importante, mais fundamental da democracia.
Quando pensamos o nome do filme identificamos nessa fala do Lula um ótimo resumo do que pretendíamos: afirmar uma outra sociedade, uma sociedade na qual, de fato, o povo possa.
Em qual fase o filme está nesse momento? Quando ele será lançado?
Estamos terminando o roteiro para iniciarmos a montagem final do filme. Nos próximos dias entraremos na edição. Mas para isso dar certo, precisamos de recursos financeiros. Tenho brincado que gastamos todas nossas moedinhas nas filmagens. Esse filme para sair precisa da ajuda do povo brasileiro. É necessário que cada cidadã ou cidadão tomem para si a responsabilidade de contar a real história do Brasil de hoje. Não basta só criticar no Facebook. Não dá pra achar que os grandes empresários ou empresas irão financiar um filme como esse. Para termos uma comunicação independente teremos de ajudar.
É a única forma de furar a bolha das grandes redes de televisão e dos jornalões que vendem o país que só lhes interessa. Pra isso, estamos fazendo uma vaquinha virtual pra arrecadar dinheiro e terminar o filme. Temos urgência. Queremos lançar “O Povo Pode” até maio, antes da Lei Eleitoral. Com o Brasil como está vão vir com tudo pra cima da gente. Por isso, contamos com a ajuda de cada leitor do DCM doando o que puder. E, também, pedimos que divulguem esse projeto nas suas redes sociais. Para doar, basta clicar nesse linkVamos fazer esse filme juntos e distribuí-lo gratuitamente, mas só vamos conseguir se nos empenharmos de fato.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

NÃO DERAM O GOLPE PARA DEVOLVER O GOVERNO AO LULA

“Não deram o golpe para devolver o poder a Lula”

Lula, , em 25/1: sinais de que manterá a candidatura mesmo se encarcerado
Derrotista e acima de tudo precária, a frase acima percorre as bolhas da esquerda, depois que o TRF-4 manteve a condenação do ex-presidente. O que há de (muito) errado nela?
Por Antonio Martins
Um frisson de euforia tomou conta dos “mercados” e da mídia desde a última quarta-feira (24/1), quando três desembargadores do 4º Tribunal Regional Federal ampliaram a condenação de Lula e dificultaram, por combinação prévia de sentença, sua defesa. A Bolsa de São Paulo subiu 5,31%. Os jornais decretam, pela enésima vez, a morte política e a prisão próxima do ex-presidente – em especial depois que um juiz substituto de Brasília, denunciado várias vezes por favorecer as fraudes fiscais de grandes grupos econômicos, proibiu-o de viajar à Etiópia. Quem sabe agora, aposta-se, a população aceite eleger um candidato afinado com as contrarreformas.
A mesma onda parece engolfar alguns sites alternativos. “A prisão de Lula é a porta para o endurecimento”; além dele, “muitas lideranças poderão ser presas”, previu o bravo Renato Rovai na revista Fórum. Nas redes sociais, as bolhas de opinião à esquerda – até há bem pouco exageradamente otimistas – agora martelam o mesmo ponto de vista. Uma frase marca o tom melancólico do debate: “Eles não deram o golpe para devolver o poder em eleições democráticas”.
Os que a repetem cometem um erro banal: confundir o desejo do adversário com o exame concreto da correlação de forças existente. Os Estados Unidos não gastaram trilhões de dólares na invasão do Iraque para entregar o poder e o petróleo a um governo ligado ao Irã. Os militares pós-1964 não transformaram o Brasil na oitava potência industrial do planeta para passar o bastão a Tancredo Neves, o homem que os chamou de “canalhas” no primeiro dia do golpe. E no entanto… O cenário pós-TRF4 é complexo e contraditório. O derrotismo é sempre uma saída fácil, porque dispensa o trabalhoso exame da conjuntura e a busca de saídas táticas. É e esse esforço que se dedica este texto, a partir de três hipóteses essenciais:
1. O bloco conservador obteve uma vitória importante, mas não rompeu o equilibrio de forças estabelecido em 2017
Foi uma vitória patife, que demonstrou a brutalidade e arrogância da Casa Grande. Ao combinarem sentenças idênticas, de doze anos e um mês, para Lula, os desembargadores do TRF assumiram que fazem um julgamento político – não o exame de um suposto crime de corrupção. A coincidência tríplice, impossível por acaso, foi tramada previamente. A intenção, alcançada, era reduzir ao máximo as chances de recurso do réu, para impedir que os eleitores possam escolhê-lo em outubro. Se possível, para encarcerar sua mensagem, a partir de abril.
O êxtase dos mercados atesta o caráter de classe da decisão. Mas não significa que a fatura tenha sido liquidada – nem, portando, que esteja aberto caminho para uma onda de prisões de líderes populares. Desde meados de 2017, o cenário político brasileiro tem como característica central um impasse – e ele se mantém. Um bloco conservador heterogêneo, formado pelo grande poder econômico, a casta política e a mídia, reuniu força suficiente para impor uma Destituinte. Implica liquidar, a toque de caixa e sem debate, tanto as conquistas sociais consagradas na Constituição de 1988 quanto as que remontam ao período do getulismo.
TEXTO-MEIO
Porém, este processo foi freado, há cerca de nove meses. A oposição popular interrompeu parcialmente os retrocessos. Por enquanto, ela não se traduz em grandes protestos. Protagonizou alguns, como as greves “gerais” de abril e maio – que não tiveram sequência. Manifesta-se, principalmente, numa espreita eleitoral muito temida por todos os que se envolveram no golpe. Há uma grande contradição latente aqui: a casta política, que sequestra a democracia, precisa do voto popular. Por isso, os deputados temem concluir o desmonte (“reforma”) da Previdência.
Aos poucos – muito menos rápido do que gostaríamos – vai se formando uma oposição consciente às contrarreformas. Maiorias substanciais já se opõem ao desmonte da Previdência, da legislação trabalhista e à privatização das estatais. O arco de alianças que promoveu o golpe tem, na maior parte das situações, força para ignorar estas maiorias. Conseguiu fazê-lo em (mês), quando impôs a contrarreforma trabalhista. Não repetiu a façanha em (mês), quando fracassou na contrarreforma política, ao se dividir (uma ala, capitaneada pela Rede Globo, opôs-se ao novo Fundo Eleitoral).
O arco pró-Golpe é incapaz, de provocar uma ruptura institucional que leve ao cancelamento das eleições ou a uma escalada repressiva ilimitada, que signifique prender em massa as lideranças sociais. Aqui, as comparações com 1964 são descabidas, por dois motivos cruciais. Não há uma força coesionadora que exerça um papel nem de longe similar aos dos militares. E, ainda mais importante: não há um projeto conservador defensável a oferecer à sociedade. O regime militar sufocou a democracia e violou em massa os direitos humanos – mas promoveu um processo notável de modernização capitalista, que urbanizou e industrializou o país. Os golpistas de hoje defendem o trabalho rural não remunerado, permitiram a disparada do preço do gás de cozinha (a ponto de provocar a volta da lenha) e reintroduziram o trabalho de gestantes e lactantes em locais insalubres… Há duzentos anos, Napoleão Bonaparte já ensinava: nem que tivessem a força das baionetas, poderiam sentar-se sobre elas.
A vitória da coalizão conservadora em 24/1 colocou-a na ofensiva, mas não resolve o impasse tático desenhado desde o ano passado. Uma nova batalha se aproxima. Após reduzir novamente suas próprias ambições, os golpistas tentarão impor, em fevereiro, a contrarreforma da Previdência. Será, acima de tudo, uma disputa simbólica. As medidas foram tão desidratadas que não provocarão efeito sensível algum sobre o Orçamento, por décadas. Busca-se acima de tudo produzir um sinal de força. O pior a fazer, às vésperas do combate, é dar por perdida a guerra contra o golpe.
2. A disputa sobre o futuro do país, após o colapso da Nova República, não está definida. Nela, Lula tem papel decisivo
Por que Lula, normalmente tão moderado e conciliador, tornou-se o grande alvo dos conservadores? Por que os jornais da velha mídia destacam, em clara atitude de torcida (1 2 3), a possibilidade de pulverização das candidaturas de esquerda? Para encontrar a resposta, é preciso examinar o papel crucial que as eleições de 2018 assumiram.
Em maio de 2016, a Nova República desabou, depois de trinta anos. O pacto de governabilidade com presidentes moderados e oposição civilizada se desfez. Mas o que virá em seu lugar? No momento, há duas alternativas possíveis. A primeira implica reverter o golpe, restabelecer a democracia e abrir caminho para o choque democrático de projetos – agora, enfim, mais explícito, menos amortecido. Interessa a todas as formações políticas à esquerda (do PT ao Ocupa Política, formado em dezembro, numa reunião em Belo Horizonte). Serve, mais que isso, a um vasto leque de movimentos sociais que não desconsideram a política institucional – embora queiram ir muito além dela.
A opção é um cenário de normalização do golpe, de vitória do Estado ultraliberal, de anulação da política enquanto possibilidade real de transformar a sociedade. Neste horizonte, os retrocessos pós-2016 consolidam-se. A Emenda Constitucional 95 mantém bloqueada a chance de políticas públicas criativas e robustas; degrada o SUS e os tímidos avanços na Educação pública – como as novas Universidades e escolas técnicas. A renda trilionária do petróleo é entregue às transnacionais. As contrarreformas Trabalhista e da Previdência rebaixam de forma duradoura as condições de vida (e de luta, principalmente) dos assalariados. Uma contrarreforma Tributária, já em tramitação, retira recursos essenciais da Seguridade. Firma-se a ideia de que não há nem direitos sociais, nem comum – apenas um mercado em que sobrevivem os “mais aptos”. O Estado brasileiro regride à condição pré-1930: a de mero garantidor da lei, da ordem, da segurança pública e da “Justiça”.
O que menos interessa ao bloco conservador é deixar explícito o choque entre os dois cenários. O ultraliberalismo não resiste à democracia. Se puder enxergar o que está em jogo, a vasta maioria da população fará sua escolha. É esta a razão da impressionante dianteira de Lula em todas as pesquisas de opinião, após quatro anos sob bombardeio diário da mídia, do Judiciário, dos políticos tradicionais. Retirá-lo do jogo, a esta altura, borraria os contornos da batalha. Guilherme Boulos, por exemplo – um possível candidato do PSOL – está muito à esquerda de Lula, mas não expressa, para a grande maioria do eleitorado, a possibilidade de um outro país.
Mais: perseguido, Lula compreendeu que sua única saída é desafiar os que o agridem. Ao fazê-lo, mantém a disputa viva, ganha tempo, impede que a superioridade atual de forças do arco conservador encerre o jogo. A intenção dos que deram o golpe é consolidar, por décadas, seu projeto de retrocessos. Mas os dados ainda estão rolando.
3. A fragmentação da esquerda não se consumou
A estratégia peculiar de Lula diante da decisão do TRF-4 está delineada, por ele mesmo, em dois discrusos memoráveis: o que fez na Praça da República, em São Paulo, horas depois de recondenado; e o que proferiu cerca de doze horas depois, ao aceitar a indicação de sua pré-candidatura à Presidência. Três decisões destacam-se em suas falas – todas coerentes com o propósito de não jogar a toalha.
Primeira: a candidatura será mantida até o fim, em desafio à tentiva de tolhê-la por expediente judicial. Esta atitude tira proveito de uma brecha, na ambígua Lei da Ficha Limpa. Não há cassação automática de candidatos. Registrada uma postulação à Presidência, até 20 de agosto, é preciso que alguém requeira sua nulidade ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cabem recursos, a esta própria corte e ao STF. Como o primeiro turno das eleições ocorrerá em 6 de outubro, será quase impossível evitar que a imagem de Lula, a temida jararaca,apareça para os eleitores nas urnas eletrônicas.
Segunda: Lula retomará as caravanas, já em fevereiro – e concorrerá mesmo em caso de vir a ser preso, como deixou implícito na fala de 25/1. E para deixar claro o caráter opositor de sua candidatura, lançará, em fevereiro, uma nova Carta aos Brasileiros – desta vez “dirigida à sociedade, não aos mercados financeiros”. É possível, especula-se que o documento inclua propostas de simbiolismo rebelede – entre elas, a tributação das grandes fortunas e dos dividentos auferidos pelos capitalistas, acompanhada pela insenção de Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil. A prisão, se houver, ocorrerá a partir de abril. Ou seja: resta tempo para criar uma situação em que o encarceramento será visto como uma represália das elites a quem desafia a ordem pós-golpe e a agenda de retrocessos.
Terceira: Não se busca uma unidade forçada da esquerda. Desse modo, evitam-se polêmicas que seriam desgastantes e constroi-se uma cena curiosa. Livre ou encarcerado – mas, em qualquer caso, sob o tacão do Judiciário – Lula permanecerá, durante toda a campanha como um símbolo; como uma possibilidade, talvez hipotética, de outro futuro. Quanto mais reais forem os riscos de ser cassado, menos seus adversários poderão atacá-lo impunemente. À sua sombra, outras candidaturas terão espaço para crescer – Ciro, Manuela, Boulos, Ouriques? O espaço estará aberto, a sorte lançada.
Precisamente neste espaço, poderão crescer, também, ideias e projetos que transcendem a mera disputa eleitoral. Destaca-se a de submeter os principais atos do golpe a Referendos Revogatórios. Se conduzida a partir dos movimentos sociais e da sociedade civil, ela permitirá ir além da resistência simbólica ao projeto de país regredido; estimular a população a examinar concretamente os sentidos da agenda de retrocessos em curso; em especial, a pensar alternativas.
Em sua intuição política formidável, Lula parece ter identificado um caminho. Uma esquerda triste reluta em enxergá-lo.não

LEGADO DE LULA CONTINUARÁ VIVO

Legado de Lula continua vivo, diz cientista político Alencastro

Postado em 29 de janeiro de 2018 às 7:32 am
O jornalista Fernando Taquari entrevistou o cientista político Luiz Felipe Alencastro no jornal Valor Econômico. Ele falou sobre Lula e o chamado lulismo.
(…)
Valor: Até que ponto a confirmação da condenação em primeira instância do ex-presidente Lula pode afetar o lulismo?
Luiz Felipe de Alencastro: O lulismo se baseia na ascensão política do PT e no carisma de Lula. Mas também num componente orgânico e resiliente, derivado de sua associação aos sindicatos e aos movimentos sociais. Impulsionados pelo boom das commodities, esses componentes deram quatro vitórias sucessivas ao PT nas presidenciais. Era possível agradar os ricos e os pobres. Obviamente, isso não se repetirá mais e Lula pode sair de cena.
Valor: A eventual prisão de Lula representaria o fim do lulismo?
Alencastro: Ainda permanece a proximidade entre o componente orgânico (sindicatos e movimentos sociais) e a máquina partidária petista, que é a segunda do país em número de eleitos na Câmara e nas prefeituras, logo depois do MDB. Por isso, acho que o lulismo, na sua mensagem social e política, continuará vivo.
Valor: Quem pode ser o herdeiro do lulismo?
Alencastro: Há três candidatos potenciais, dois do PT, Fernando Haddad e Jacques Wagner, e Ciro Gomes, do PDT. Gostaria que Tarso Genro também entrasse na lista, mas parece difícil, dada as antipatias que dividem o PT.
Valor: Quem leva vantagem nesta disputa?
Alencastro: Haddad pode renovar o PT, mas é pouco conhecido fora de São Paulo e não tem apoio unânime no partido. Wagner tem o apoio da máquina partidária, ganhou duas eleições para o governo da Bahia e ainda fez seu sucessor. Mas parece não estar disposto a disputar a sucessão de Lula no PT. A meu ver, ele foi também um chefe da Casa Civil desastrado, garantindo até a última hora que a proposta de impeachment seria derrotada no Congresso. Enfim, há Ciro, que não é do PT nem sabe lidar com sindicatos e movimentos sociais. No frigir dos ovos, tudo dependerá do empenho de Lula na campanha de seu sucessor. De todo modo, o PT tem que concorrer à Presidência, até mesmo para tentar conservar sua bancada parlamentar e os governos estaduais que lhe restam.
Valor: Dentro de 50 anos, o que Lula representará para a história do Brasil? Poderá ser comparado ao ex-presidente Getúlio Vargas?
Alencastro: Não tenho dúvida que o lulismo é mais importante que o varguismo. Getúlio mudou o modo de intervenção do Estado na economia. Lula mudou, para muito melhor, a intervenção do Estado na sociedade. Os resultados estão inscritos em todos os gráficos demonstrando o progresso social de 2004 a 2014. Sem contar o aumento das vagas universitárias, do ensino técnico e da política de cotas, elogiada por muita gente, e até pelo juiz Sergio Moro.
(…)
Lula e Haddad. Foto: Ricardo Stuckert

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

LULA NA FAO - REPARTIR O PÃO É O PRIMEIRO PASSO PARA CONSTRUIR A PAZ

Lula na FAO: Repartir o pão é o primeiro passo para construir a paz

Durante discurso na abertura da 39º Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, ele relembrou as conquistas dos brasileiros durante os últimos 12 anos, principalmente no combate à fome e à pobreza
 06/06/2015 09h27 - atualizado em 07/07/2016 11h21

Ricardo Stuckert
O apoio ao ex-presidente e o repúdio à sentença arbitrária de Sérgio Moro só faz crescer ao redor do mundo
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu, neste sábado (6), a 39º Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma. Durante o evento, o diretor-geral da entidade, o brasileiro José Graziano, foi reeleito.
Durante o discurso, ele relembrou as conquistas dos brasileiros durante os últimos 12 anos, principalmente no combate à fome e à pobreza.
“Estamos vendo crescer a primeira geração de brasileiros que não conheceram o drama da fome”.
Para o ex-presidente, o exemplo do Brasil, que saiu do Mapa da Fome em 2014, mostra que é “possível” superar a fome. No entanto, ele avalia que, para isso, é necessário incluir os pobres no orçamento público e não tratá-los como estatística, mas como seres humanos.
“A experiência brasileira provou que é possível, sim, superar a fome, quando o combate à pobreza é elevado a política de Estado, com recursos assegurados no orçamento”, explicou.
“Quando se combinam programas sociais de alimentação, saúdeeducação e apoio aos pequenos e médios agricultores. Quando se adotam estratégias permanentes de distribuição de renda, geração de empregos e valorização dos salários”, completou o ex-presidente.
Além disso, Lula relembrou o preconceito de setores da imprensa e de parte da sociedade brasileira contra programas de transferência de renda. Segundo ele, o tempo mostrou, com os resultados, que os críticos estavam errados.
“Eu nunca pensei que dar comida aos pobres causasse tanta indignação”, criticou.
O ex-presidente também homenageou em sua fala três pessoas pelo papel que tiveram no combate à fome no Brasil: José Graziano, diretor-geral da FAO; Patrus Ananias, ex-ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e atual ministro do Desenvolvimento Agrário, e a ministra do Desenvolvimento Social Tereza Campello.
A mensagem final do discurso de Lula para a Conferência da FAO foi que “repartir o pão é o primeiro passo para construir a paz”.
Leia abaixo na íntegra o discurso escrito do ex-presidente na abertura da Conferência da FAO:
“MCDOUGALL MEMORIAL LECTURE
Sessão de Abertura da Conferência da FAO
Roma, 6 de junho de 2015
Agradeço a honra de ter sido convidado pela FAO para proferir, em sua 39a Conferência, a palestra que reverencia Frank McDougall, um dos grandes inspiradores desta organização e da causa da alimentação no mundo.
Na verdade, esta homenagem pertence ao povo brasileiro, pelos êxitos alcançados na superação da fome e da pobreza no meu país.
Esta é uma ocasião para recordar os laços históricos entre a FAO e o Brasil, que é um dos 44 países fundadores desta grande organização, na conferência de 1943.
Na década de 1950, aqui trabalhou, ao lado de Frank McDougall, um dos mais importantes cientistas brasileiros, Josué de Castro.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

‘Perseguição a Lula é vergonha internacional para judiciário brasileiro’, diz nota do PT

‘Perseguição a Lula é vergonha internacional para judiciário brasileiro’, diz nota do PT: O Partido dos Trabalhadores já considera a perseguição do judiciário ao ex-presidente Lula um vexame internacional. Em nota, a legenda afirma que a apreensão do passaporte do ex-presidente cerceou seu direito de ir e vir a poucas horas do embarque … Continue lendo →

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Julgadores de Lula no TRF4 têm vínculos pessoais com Moro e/ou MPF

Julgadores de Lula no TRF4 têm vínculos pessoais com Moro e/ou MPF: O perfil dos desembargadores que irão julgar Lula dia 24 ajuda a explicar por que já é dado como certo que irão condenar o ex-presidente. Parcialidade e formação inadequadas levantam uma questão importante sobre que perfil deve ser exigido para que alguém seja juiz.

TRF-4 SOB SUSPEITA PARA JULGAR O LULA

Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018

4 fatos que colocam o julgamento do TRF-4 sob suspeita para julgar caso do Triplex

As esferas de poder que atuam no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, palco do julgamento do ex-presidente Lula no caso do Triplex, já deram suas mostras em público de cumplicidade com Sérgio Moro, inclusive quando ele foi julgado por confessados abusos. Do Presidente do Tribunal ao relator da apelação, passando pelo órgão especial, o comportamento é de extensão das mãos do magistrado federal.


O fato causa preocupação e atinge a credibilidade do Tribunal para julgar a causa. Como aponta o Professor Doutor da Universidade Federal do Paraná, Juarez Cirino dos Santos, “a tendência dos Tribunais é proteger a decisão de seus Juízes, como se a Justiça fosse um ‘continuum’ institucional, e não um Poder do Estado estruturado sobre a garantia constitucional da duplicidade de instâncias”. 
No caso específico, o Justificando elencou 4 fatos que colocam o julgamento sob suspeita e descrédito. Confira:
1) Presidente do Tribunal que irá rever sentença de Moro disse que ela está “impecável”
“[A sentença de Sérgio Moro que condenou Lula] é tecnicamente irrepreensível, fez exame minucioso e irretocável da prova dos autos e vai entrar para a história do Brasil”. Você pode confundir quem fez essa afirmação na grande imprensa como algum membro da força tarefa da Lava Jato, mas na verdade o autor do rasgado elogio é ninguém mais, ninguém menos que Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, Presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, corte responsável pela revisão da sentença da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba. O presidente do Tribunal tem o poder de decisão sobre todos os aspectos que circundam o julgamento que será realizado pelo relator e demais desembargadores. 
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A entrevista tem outras pérolas, como, por exemplo, a afirmação de que Moro “está cumprindo sua missão”. Thompson Flores, de família centenária no Direito, não faz questão de deixar bem nítido qual o tom do ambiente que, teoricamente, deveria revisar a sentença com o mínimo de distanciamento. Pelo contrário, suas idas a público na grande mídia são constantemente para favorecer o magistrado em detrimento da defesa – a última do presidente foi a afirmação genérica de que magistrados estariam sendo ameaçados, como denunciou o colunista no Justificando, Felipe Freitas.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Inflação abaixo do piso é erro do BC e sintoma de economia combalida - Portal Vermelho

Inflação abaixo do piso é erro do BC e sintoma de economia combalida - Portal Vermelho: O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, encaminhou na tarde desta quarta-feira (10), ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, uma carta aberta justificando o erro de calibragem da política monetária, após a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2017 em 2,95% - abaixo do piso da meta fixada pelo governo, de 3%. Michel Temer comemorou a queda nos preços, mas o que pode parecer positivo, na verdade, sinaliza falta de vitalidade da economia.

Belluzzo: Não há solução fiscal sem crescimento e emprego - Portal Vermelho

Belluzzo: Não há solução fiscal sem crescimento e emprego - Portal Vermelho: “Você não vai ter solução para a questão fiscal se a economia não voltar a crescer. Sem que a economia comece a gerar renda e emprego”, afirmou o economista e professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Por que Lula divulgou a sentença condenatória de Moro

Por que Lula divulgou a sentença condenatória de Moro: Nesta semana, o site de Lula divulgou a íntegra da sentença condenatória de Sergio Moro contra o ex-presidente, emitida em julho do ano passado. Nesta quarta-feira no site do jornal O Estado de São Paulo, a defesa de Lula deixa a ver a razão da divulgação daquela sentença.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Estado policial faz blitz em redes sociais de apoiadores de Lula

Estado policial faz blitz em redes sociais de apoiadores de Lula: Estão sendo monitorados perfis institucionais ou de integrantes ligados a movimentos que planejam protestos para a data, como MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), CUT (Central Única dos Trabalhadores) e MBL (Movimento Brasil Livre). A intenção alegada é "detectar riscos de atos violentos".

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Lula vai liderar o levante popular?

Lula vai liderar o levante popular?: Seria o momento de Lula liderar o levante popular do qual fala o senador Roberto Requião (PMDB-PR)? O ex-presidente deverá ser condenado no dia 24 de janeiro pelo TRF-4 — e preso na sequência — e, consequentemente, ficará inelegível para … Continue lendo →

sábado, 9 de dezembro de 2017

AGORA: Ex-preside Lula se encontra com artistas e intelectuais no RJ.Ass...

AGORA: Ex-preside Lula se encontra com artistas e intelectuais no RJ.Ass...

REFORMA DA PREVIDÊNCIA PODE COMPROMETER REELEIÇÃO?




Diap: Reforma da Previdência pode comprometer reeleição?

Data de publicação: 7 Dez 2017


Sim! O atual presidente não é popular, não existe financiamento de campanha, não há satisfação popular nem as perspectivas são boas para o povo, e os parlamentares já votaram matérias impopulares – como a Reforma Trabalhista e o Congelamento Do Gasto Público – e comprometeram suas biografias votando pela absolvição de denunciados por vários crimes, inclusive formação de quadrilha, e que, portanto, o eleitor não irá tolerar que votem mais 1 vez contra a maioria do povo, aprovando uma reforma da Previdência que pune servidores, trabalhadores do setor privado, e beneficia bancos e seguradas privadas.





por Antônio Augusto de Queiroz



Todos estão de acordo sobre a necessidade de adequação da legislação previdenciária aos indicadores demográficos e também aos critérios financeiros e atuariais, mas o que se está fazendo nesse momento é pura mistificação.

Sob o pretexto de evitar a falência do sistema previdenciário, governo, empresários, Banco Mundial, imprensa e até funcionários públicos se somam para mentir para a população, passando a falsa ideia de que, uma vez feita a reforma da Previdência, as finanças públicas voltam a ficar em ordem, já que se enfrentaria um déficit monumental.

A alegação é de que com as atuais despesas previdenciárias não sobram recursos para a educação, a saúde ou a segurança, passando a ideia de que seria possível ampliar o gasto com essas outras rubricas, desde que se fizesse uma reforma na Previdência. É mentira!

Desde que entrou em vigor a Emenda à Constituição (EC) 95, que congela o gasto público em termos reais por 20 anos, o orçamento terá como parâmetro a despesa do ano anterior, corrigida pelo IPCA, e não mais a receita. Logo, mesmo que haja aumento da receita não pode haver aumento de gasto, já que toda a receita nova será destinada a abater déficits ou, na ausência destes, gerar superávit e utilizá-lo, integralmente, no pagamento dos juros e do principal das dívidas interna e externa – dívida pública.

Nessa campanha pela reforma da Previdência, propositadamente, misturam dados e informações sobre supostos rombos que não serão resolvidos pela reforma, já que os benefícios em usufruto, tanto no setor público quanto no setor privado, vão continuar sendo pagos e não existe reforma ou mágica que faça essa despesa desaparecer, como querem fazer crer os defensores da reforma já e a qualquer custo.

A diferença hoje existente entre o que se arrecada do servidor e do ente público, na medida em que não houve reserva ao longo das décadas de pagamento de contribuição antes do usufruto do benefício, vai continuar existindo para os atuais aposentados e pensionistas, porque o sistema de repartição requer reposição de quadros, e isto não tem sido feito, especialmente nos governos neoliberais. Aliás, a própria EC 95 exclui do computo da despesa, para fins de limites, a contratação de pessoal para substituir quem se aposentou.

Para manter um benefício de um aposentado ou pensionista, é necessária a contribuição de pelo menos quatro ativos, e hoje a relação é praticamente de 1 por 1 no serviço público e de 2,5 por 1 no Regime Geral (INSS). Logo, num sistema desses, considerando só a receita atual de contribuições, haverá déficits e não tem reforma que resolva isso, exceto se cortar os benefícios.

Assim, utilizar uma informação que não será afetada pela reforma para justificar sua realização é, no mínimo, desonestidade intelectual. Qualquer reforma que se faça poderá retardar aposentadoria e até reduzir o valor das aposentadorias e pensões daqueles que ainda não preencheram os requisitos para fazer jus ao benefício, mas nenhum impacto terá, a curto prazo, em relação aos supostos “déficits” atuais.

Promover ajustes no sistema previdenciário, com respeito aos direitos adquiridos e aos direitos acumulados, com regras de transição para os que estão em processo de aquisição de direito, e com novas regras para os futuros segurados, é fundamental, mas respeitando-se a isonomia entre os 2 sistemas (regimes próprios do servidores e regime geral) e não utilizando o argumento da isonomia e aplicando critérios distintos, com desfavor dos atuais e futuros servidores.

Alguma reforma é necessária, porque, embora já tenha sido feita para os servidores públicos federais – com adoção de idade mínima e a quebra da paridade e integralidade para os que ingressaram entre 2004 e 2013 e a limitação dos benefícios ao teto do INSS, desde que foi criada a Previdência Complementar da União em 2013 – alguns estados e municípios ainda não adotaram a Previdência Complementar e no INSS não existe idade mínima, ainda que a formula 85/95 leve a uma idade mínima e o fator previdenciário reduza drasticamente o benefício de quem se aposente antes de completar 60 anos de idade, mesmo tendo mais de 30 de contribuição.

O fato de reconhecer a necessidade de alguma reforma não significa que seja feita a toque de caixa e com agressão a direitos, até porque não produzirá nenhuma economia significativa a curto prazo e se prestará, no formato apresentado, para privatizar a Previdência Pública, abrindo mercado para os bancos e seguradoras privadas. Pode-se, perfeitamente, esperar 1 governo legítimo para fazê-la, com respeito à expectativa de direito e sem o objetivo de punir determinados segmentos dos assalariados nem de favorecer bancos e seguradoras privadas, como é o caso da atual reforma, inclusive em sua versão “enxuta”.

Para levar a cabo a reforma da Previdência, que faz parte de mais 1 entrega desse governo ao mercado financeiro, o governo mente, manipula dados e envolve até inocentes úteis nesse processo, como determinados funcionários púbicos, que emprestam sua capacidade intelectual para manipular informações sem a devida contextualização.

Quando se afirma que os deputados que votaram a favor da reforma da Previdência de FHC, em 1998, tiveram melhor desempenho nas urnas que aqueles que votaram contra, sem informar que naquele período havia financiamento empresarial de campanha, o ambiente era de satisfação popular com o Plano Real e o presidente FHC era muito popular e candidato à reeleição – e que o governo e o mercado compensaram regiamente os parlamentares com perspectiva de poder e recursos de campanha pelo apoio à reforma – está-se induzindo os atuais deputados a votarem a favor sob o fundamento de que, com isso, vão renovar seus mandatos.

Mas o atual presidente não é popular, não existe financiamento de campanha, não há satisfação popular nem as perspectivas são boas para o povo, e os parlamentares já votaram matérias impopulares – como a Reforma Trabalhista e o Congelamento Do Gasto Público – e comprometeram suas biografias votando pela absolvição de denunciados por vários crimes, inclusive formação de quadrilha, e que, portanto, o eleitor não irá tolerar que votem mais 1 vez contra a maioria do povo, aprovando uma reforma da Previdência que pune servidores, trabalhadores do setor privado, e beneficia bancos e seguradas privadas.

Outra manipulação em curso, também com fins de favorecer o mercado, é a campanha de combate aos supostos privilégios dos servidores públicos, porque facilita o desmonte do Estado e a entrada do mercado na venda e prestação de serviços públicos. Depois que a onda pseudomoralista do combate à corrupção cumpriu seu papel, ou seja, afastou a presidente Dilma e permitiu aprovar várias reformas pró-mercado, agora precisa estancar a Lava Jato, que avança além do PT, pegando seus próprios incentivadores. Para esvazia-la nada melhor que escolher outro inimigo, no caso os servidores públicos.

O momento requer reflexão. Todo o apoio da mídia e do mercado à reforma, nessa reta final da sessão legislativa, também tem o objetivo de desviar o foco das proposições que aumentam desonerações como a MP 795 que promove uma trilionária desoneração do setor de petróleo e gás, ou que podem aumentar receitas públicas – poupando o empresariado do pagamento de algumas dezenas de bilhões em tributos – como é o caso da MP que tributa os fundos fechados de investimento, e do projeto de lei que trata da reoneração da folha, que deixarão de ser votados e isentam o setor empresarial do pagamento desses tributos já a partir de 2018.

A reforma – exceto se todos os partidos da base fecharem questão, o governo liberar mais recursos do que irá economizar com ela – não será aprovada, mas fortalece determinadas figuras públicas perante o mercado e, mais importante, isenta este (o mercado) do aumento de tributos no ano de 2018, porque todo o foco e esforço foi deslocado para a reforma, mesmo sabendo que ela não teria chances reais de aprovação.



* Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista político e diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar -  Diap




Fonte: Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar -  Diap

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Em defesa da Aposentadoria, reforma de Temer é alvo de protestos - Portal Vermelho

Em defesa da Aposentadoria, reforma de Temer é alvo de protestos - Portal Vermelho: Os movimentos sociais e as centrais sindicais ocuparam as ruas nesta terça-feira (5) contra a proposta de reforma da Previdência de Michel Temer. Foram realizados atos, paralisações de 24 horas, bloqueio de avenidas e rodovias, ocupação de prédios do INSS, marchas e protestos em aeroportos. O objetivo foi alertar a população para o que, sindicalistas e especialistas, consideram o maior ataque à Previdência Social.

A mentira da recuperação da economia - Portal Vermelho

A mentira da recuperação da economia - Portal Vermelho