terça-feira, 3 de novembro de 2026
Amordaça o investimento real e libera o rentismo inconsequente
Postado por:
Ernani Lucena
Artigo formatado com ajuda da Inteligência Artificial
O debate econômico brasileiro padece de um terrível vício de insensibilidade. Nos últimos meses, fomos bombardeados por gráficos, planilhas e sussurros nervosos vindos da Faria Lima, celebrando o "sucesso técnico" de um Banco Central que mantém a taxa Selic nas alturas enquanto a inflação oficial caminha sob aparente controle. No entanto, por trás da frieza desses indicadores macroeconômicos, esconde-se uma engrenagem perversa de transferência de riqueza que drena a vitalidade do país. O arranjo macroeconômico atual funciona sob uma lógica invertida e profundamente imoral: ele amordaça o investimento real e libera o rentismo inconsequente.
Falar em "ajuste fiscal" tornou-se o salvo-conduto para mascarar o que, na verdade, é um verdadeiro amordaçamento do Estado brasileiro. Sob o microscópio da ortodoxia contábil, cada centavo destinado a construir uma ferrovia pelo BNDES, reformar uma escola técnica, investir em energia solar ou universalizar o saneamento básico é vigiado como um crime de lesa-pátria. Dizem que "o dinheiro acabou" e que o investimento produtivo põe em risco o futuro da nação. Curiosamente, essa mordaça fiscal é extremamente seletiva. Ela asfixia o crédito para o microempresário e congela o auxílio aos mais vulneráveis, mas oferece passe livre para o gasto que verdadeiramente implode as contas públicas: o pagamento de juros da dívida indexada à Selic.
O Brasil carrega a anacrônica "jabuticaba" de emitir quase metade de sua dívida pública atrelada aos juros diários fixados pelo próprio Banco Central. Quando a Selic sobe, bilhões de reais são injetados, de forma automática e sem qualquer contrapartida produtiva, nos bolsos de uma fração mínima da sociedade — grandes fundos, bancos e rentistas. É a institucionalização da ciranda financeira denunciada por mentes tão distintas quanto André Lara Resende, Maria Lucia Fattorelli e até mesmo o economista ortodoxo John Cochrane, que enxerga nesse descalabro fiscal a raiz da nossa instabilidade. Trata-se de um rentismo inconsequente, que não gera um único emprego, não ergue um único tijolo, mas consome anualmente cerca de 10% do PIB em juros.
A sabedoria popular há muito decifrou esse mecanismo ao professar que "o muito nas mãos de poucos é pobreza, e o pouco nas mãos de muitos é riqueza". Dinheiro parado em aplicações financeiras de curto prazo perde sua utilidade social; orbita em uma estratosfera abstrata enquanto a economia real míngua. Por outro lado, o dinheiro na mão da classe trabalhadora ganha velocidade, vira consumo, vira receita para o comércio local, vira investimento na fábrica. Ao optar por remunerar a especulação em detrimento da produção, o modelo econômico tradicional sufoca o poder multiplicador do consumo de massa e escolhe ativamente a estagnação.
A reeleição do presidente Lula para este novo mandato abriu uma janela histórica de oportunidade para romper com esse terrorismo psicológico de mercado. O Brasil de hoje não é o país quebrado e frágil do século passado. Dispomos de um escudo de mais de US$ 350 bilhões em reservas cambiais e de uma inserção geopolítica robusta no ecossistema multipolar dos BRICS, capazes de amortecer qualquer fuga de capital especulativo de curto prazo. Há saúde financeira e, acima de tudo, autoridade moral para desindexar a dívida pública, reduzir os juros para patamares civilizados e buscar linhas alternativas de financiamento produtivo e de longo prazo.
Não podemos permitir que o pragmatismo político de novos ministros ou o brilho puramente acadêmico de jovens matemáticos convertam o novo governo em um gestor passivo dessa mordaça. A verdadeira credibilidade de uma nação não se mede pela subserviência ao humor volátil dos especuladores, mas sim pela dignidade do seu povo, pela modernidade da sua infraestrutura e pela soberania das suas decisões. Chegou a hora de inverter as prioridades: amordaçar de vez o custo financeiro do rentismo e libertar a energia criativa do investimento real.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Esquerda articula forte bancada digital para enfrentar extrema-direita nas redes
Esquerda articula forte bancada digital para enfrentar extrema-direita nas redes
Frente com 13 parlamentares unifica discurso e atuação nas redes sociais para disputar narrativa no Congresso Nacional
Conteúdo postado por:
Guilherme Levorato
02/11/20226
247 – A necessidade de manter a mobilização social que assegurou o resultado das urnas no segundo turno levou a esquerda a organizar a criação de uma “bancada profissional digital” na Câmara dos Deputados, informa Malu Gaspar, no jornal O Globo. A articulação une pelo menos 13 parlamentares do PT, PSOL, PCdoB e PSB.
A nova safra de deputados é composta por Guilherme Cortez (PSOL-SP), Ana Júlia Ribeiro (PT-PR), Ana Elisa (PT-MG), Pedro Rousseff (PT-MG), Giovana Mondardo (PCdoB-SC), Rosa Amorim (PT-PE), Luna Zarattini (PT-SP), Jones Manoel (PSOL-PE) e Rick Azevedo (PSOL-RJ). Eles se somam a nomes reeleitos e já consolidados no meio virtual, como Erika Hilton (PSOL-SP), Dandara Tonantzin (PT-MG), Pedro Campos (PSB-PE), Camila Jara (PT-MS) e André Janones (Rede-MG).
A convocação desse grupo ocorreu após a primeira etapa da disputa presencial, momento em que o presidente Lula (PT) ficou 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro (PL). O movimento visava fazer frente à presença digital de expoentes da extrema-direita, a exemplo de Nikolas Ferreira (PL-MG), recordista de votação no país com 3,1 milhões de eleitores, e Lucas Pavanato (PL-SP), que atingiu marca superior a 3 milhões de votos.
Integrantes do grupo pretendem coordenar publicações simultâneas e hashtags padronizadas para dar projeção a projetos prioritários do governo. O empenho dos parlamentares visa também sustentar a estratégia de comunicação direta do governo. Na última quinta-feira (29), após reunião com Janones — gestor do canal “Exército de Lula” —, o presidente confirmou a diretriz: “a gente vai trabalhar para fazer uma comunicação digital muito forte. Eu já não vou mais conversar com vocês via a interpretação da imprensa. Eu vou conversar com vocês através do canal do Janones”.
A articulação pelas redes se contrapõe à realidade numérica das bancadas no Congresso Nacional. A oposição de extrema-direita conta com expressiva representação: apenas o PL possui 121 cadeiras, volume comparável aos 124 parlamentares somados por toda a coligação de esquerda (PT, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede).
Consciente da desvantagem nas votações regimentais, a deputada Erika Hilton defende a construção de pontes com legendas de centro para isolar o bolsonarismo e aprovar matérias de interesse dos trabalhadores. “Eu acho que é importante a gente trabalhar alguma centralização mínima. Obviamente, há a autonomia de cada mandato, cada figura comunica com o seu público ao seu modo. Sempre tive muito pavor dessa tentativa dos partidos tradicionais em centralizar, mas é fato que vai ser fundamental uma organização no próximo período”, explica Erika.
Por sua vez, Guilherme Cortez avalia que o campo progressista entra na nova legislatura com mais preparo técnico do que em momentos anteriores. “Se por um lado eles (direita) têm uma vantagem numérica e uma correlação de forças favorável no Congresso Nacional, por outro, qualitativamente, a gente está muito mais pronto para enfrentar eles do que a esquerda já esteve em qualquer momento. E agora moralizados e empoderados pelo resultado que tivemos (eleição de Lula). Eles perderam”, ressalta Cortez.
O deputado do PSOL pontua ainda a importância de dialogar com as insatisfações da juventude diante da política tradicional. “Eles direcionam essas frustrações legítimas contra inimigos que não existem. E se a esquerda quiser se tornar relevante, precisa ela própria apresentar respostas melhores e mais convincentes. Não basta estar certo”, pondera.
A deputada eleita Ana Júlia Ribeiro enfatizou que os novos congressistas trazem histórico de militância e capacidade de formulação. “Nós conseguimos, de fato, eleger uma bancada de juventude que conhece bem esse povo (direita) e como eles atuam, mas principalmente uma bancada de muito conteúdo. É uma bancada que vai fazer o enfrentamento. São quadros que tiveram toda uma formação política. De movimentos estudantis e sociais, Câmaras dos Vereadores e Assembleias Legislativas”, reforça.
Sob a perspectiva acadêmica, o combate narrativo nas redes é vital para a sustentação política do Executivo e a sucessão de 2030. De acordo com Arthur Ituassu, professor de Comunicação Política da PUC-Rio, a esquerda precisa consolidar a infraestrutura digital montada no pleito. “Tem que ter uma disputa constante de narrativas. A política, hoje, é assim. Se não disputar as narrativas no meio digital, alguém vai construir a percepção por você. Se você não estiver lá disputando, a oposição vai construir a percepção para você. E uma percepção favorável a ela. Isso envolve muito o nível de aprovação do governo, e não é à toa que houve um sofrimento para a reeleição”, conclui o especialista.
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